sexta-feira, 20 de março de 2015

sobre solo e afeto



Topofilia, a relação entre lugar, memórias, afetos e pertencimento. O nosso elo com o solo. É difícil de entender só com palavras, leituras e histórias. É preciso que a gente viva essa sensação de pertencer. Desde pequena, pertenço à casa amarela da rua 14, num bairro que não recebe elogios nos jornais.

Hoje, quando me pedem meus documentos e eu entrego o comprovante de residência, eu me lembro de que as contas não vêm mais com o endereço da rua 14. Eu moro em outro lugar, mas a minha vontade é dizer para a moça do outro lado do balcão que o comprovante é falso, é só um papel. Se eu sumir, moça, você nunca vai me achar escondida num prédio.

Até a Clarice Lispector disse que, ao nascer, a primeira vontade que ela teve foi a de pertencer. Minha residência se consiste em um prédio, um tic-tac, um vai e vem e duas plantas que eu mantenho, porque elas não se importam com as janelas fechadas durante o dia. Mas o meu pertencimento não é tão restrito assim, ele tem cheiro de pé de abacate e portão de grade.

Por isso, os comprovantes de residência são falsos. Não adianta nada eu ter uma casa, se ela não me tem. Por isso que quando a gente se apresenta e diz onde mora, não devemos iludir o outro. Eu sempre digo: sou fulana, assisto, trabalho, estudo e existo aqui, mas só vivo em outro lugar. Afinal, eu e Clarice chegamos a mesma conclusão: pertencer é viver.

Se os seus olhos ainda não se sentem pertencentes a essa página e você precisa de um motivo a mais para continuar a ler as minhas viagens sobre elos e portões de grade, já me apresento: Mariana Felipe, quase jornalista, quase escritora, quase deu certo, quase anapolina, mas completamente pertencente.


Um comentário:

  1. Meus olhos são totalmente pertecentes às suas viagens. Aguardo seus livros!

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