sábado, 29 de maio de 2010

Da distância ,

eu só quero UMA coisa : que ela fique longe, bem longe de mim.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Disseram-me ,

que a saudade é um complemento para não reclamarmos das tardes vazias. Disseram até que vai bem com chocolate quente. E é mentira, ela não vai bem com nada.
Só não me disseram o que fazer quando ela bate todos os dias na sua porta, insistindo em entrar , e quando não tem mais jeito , entra. Mais forte que você.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Lá nas estrelas...

Não , nem venha , Clara. Sabe o que aconteceu ? Ontem o meu avô foi para as estrelas, sabia ? Eu vi que todos estavam tristes ,tinha muita gente na minha casa e estranhei. Quando perguntei a mamãe ela me contou para onde ele tinha ido . Disse que ele foi para lá e o coração dele parou de bater. Sabe Clara, eu fico me perguntando as vezes : Será que ele vai demorar muito nas estrelas ? É que eu já estou com saudade ! Eu não entendi muito bem, Clara. Na verdade, eu quase nunca entendo nada, sempre me deixam por fora, e eu nem sei se acredito nisso que a minha mãe diz, mas sei que sinto falta do meu avô . Se ele tivesse me dito antes, tinha pedido para ir junto. Hoje na hora que eu acordei, eu fui lá na cama dele e encontrei a vovó sentada lá passando a mão no lugar que ele deitava. Eu perguntei se também sentia saudade e ela disse que sim. Sentei-me com ela e pedi que não se preocupasse. A mamãe tinha dito que um dia todos nós vamos para as estrelas também. Até você, Clara ! Só que uns vão antes e outros, depois. A vovó chorou e me abraçou e eu só sei que quis abraçá-la também. Ela falou que era assim mesmo. Assim mesmo como ? Olha, todos os dias eu escuto o meu coração batendo, batendo...bem aqui no peito. Se um dia eu não escutar mais, Clara, eu morro. Sério mesmo, eu morro.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Elevador

Hoje eu acordei e depois de me arrumar, saí. Desci pelas escadas. Atravessei a rua, cheguei do outro lado - o da rua. Assim eu fui...sempre procurando algo em que acreditar.É preciso.
Quando voltei, atravessei a rua, parei e me vi no lugar que antes havia sido o meu ponto de partida. Voltando ao mesmo lugar, como sempre. Ia subir pelo elevador. Talvez devesse acreditar nele, pelo menos estava me levando a algum lugar alto. Pensei por alguns segundos e decidi subir pelas escadas.
Talvez devesse acreditar em mim.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Regador

Mesmo não tendo muitas lembranças, eu não me esqueço.
Lembro que a minha avó me mandava regar as suas roseiras. Ela sabia que eu gostava e era o melhor a se fazer ali. As cores eram lindas ! Eu me perdia no meio daquelas roseiras e suas cores, brancas, vermelhas, rosas...As melhores eram as brancas. Não eram de um branco amarelado , eram brancas , brancas ...
Eu me agachei e comecei a regá-las. Achei uma borboleta linda , mas ela voou. Fez bem. Quem me dera fazer o mesmo !
De repente, senti uma gota no meu braço. Talvez o anúncio da chuva e logo o papagaio começou a gritar seu medo e o Joanito latindo correu para a sua casinha, doido para que alguma lagartixa aparecesse. E eu ? Eu continuei ali. Nunca vi necessidade em fugir da chuva, nenhuma mesmo. E ali, no quintal, na casa da minha avó e ainda na chuva, me sentia mais livre do que nunca. Não como a borboleta mas, livre.
A chuva começou a ficar forte, forte...Pensei que o céu era um regador. Um regador enorme, de pessoas. Ali, parada, tentava olhar para cima,mas as gotas me forçavam a fechar os olhos. Poderia ser uma rosa. Se o céu era um regador...
Eu fui esquecendo de tudo...
Quando me dei conta, a chuva ficava fraca, fraca...Já não chovia mais. Chuva rápida, passageira - ou não.
Entrei molhada e a vovó me perguntou se eu havia regado, mesmo tendo sido em vão. Disse-lhe que sim, não só as roseiras. Ela não entendeu. E eu, eu me sentia regada.
Desde aquele dia não me esqueci que as vezes é necessário regar-se .

domingo, 9 de maio de 2010

Peixes...

Cíntia parou e olhou para o aquário. Na verdade, nunca tinha parado para repará-lo e a mãe já o tinha colocado ali a alguns dias. Ela nunca achou graça em peixe, bicho besta ! Não faz nada, não é mesmo ? Preferia o cachorro que tinha pedido à mãe e que ainda não havia recebido, o que era triste. Já tinha prometido que cuidaria, daria banho e tudo mais, mas ainda não convencera a mãe. Tudo bem, o Jorge prometera ajudá-la. Quer dizer, na verdade não sabia. O Jorge só sabia viver com aquele fone no ouvido ou conversar no computador. Ela não sabia como se conversava pelo computador, mas o Jorge conversava. Ele era muito inteligente, isso sim !E quando pensava assim, nem se importava com os fones dele, que eram mais importantes que ela, pensava também em nunca mais lhe falar que não gostava dele. Ele não merecia, coitado. E quem sabe um dia, a ensinaria a conversar pelo computador também, não é ? Não custava tentar. Um dia ! Antes iria aprender a ler como gente grande.
Olhou o peixe novamente. A Vó lhe dissera que era um peixe palhaço. Ah, ele era até bonitinho...tinha as cores do vestido novo da Clara. Um dia ela viu um filme que tinha um peixinho assim...até que ele era engraçado. Mas, aquele ali não era muito não. Ele nem falava e o do filme falava. Mas, o Jorge quando ela era bem pequena, quer dizer...um pouco menor, disse que era só em filmes mesmo.
Não ia mais ficar olhando aquele peixe chato. Não via a hora de ganhar o seu cachorro, pelo menos ele iria latir e brincar com ela. Peixes não brincam...pra quê um peixe na sala ?
A tarde estava muito chata e aquele peixe inútil a irritava. Queria ir brincar com a Clara. Foi procurar o Jorge.

domingo, 2 de maio de 2010

Encantador

Não precisas olhar tentando achar algo que te encante.
Eu realmente acho que o encantador não se vê...
Pena que poucos sabem disso.

sábado, 1 de maio de 2010

Marcas

Quando acordou pela manhã e se olhou no espelho, levou um susto. Mas, não estava infeliz, pelo contrário, agora sim poderia se considerar feliz, muito feliz. Ficou muitos minutos se olhando no espelho e se admirando, pois agora não era mais um menino, era um homem. Agora, teria que pensar na vida, ter mais responsabilidade, mostrar aos outros a sua mudança. Teria que ser sincero com os amigos e dizer que crescera, crescera mesmo e agora teria uma vida de adulto e eles teriam que entender que na vida dos adultos não tem espaço para bolinha-de-gude ou brincadeiras ás seis da tarde. Não teria mais isso, pois agora era um homem e nem se cansava de dizer isso.Agora teria uma das tais marcas que a mãe lhe dizia que a vida deixava e que ele não sabia pois ainda era novo. Se dissesse para alguém, considerariam exagero, mas para ele não, era essa a realidade e ponto.
Foi contar ao pai e correu pelo corredor em êxtase, batendo nas portas. Quando mostrou-lhe, mudou rapidamente a face, o pai o deixara triste. Disse-lhe que era apenas uma picada de mosquito e que desse tempo ao tempo.
Deitou-se do lado do pai, abraçou-lhe , sentindo-se um pouco ridículo e dormiu. O pai tirou-lhe aquele sentimento no seu afago .
Dormiu...Sem saber que não tinha a espinha com que ele sonhara, mas que começara a aprender e que a vida tinha sim lhe deixado uma marca : a desilusão.