quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Sem virtudes no semáforo

Gente, para quem não sabe, meu irmão escreve. Como ele já publicou ,vou colocar um texto dele aqui, o qual eu gosto muito. Espero que vocês gostem também e não me desprezem depois, hahaha


Sem virtudes no Semáforo

Ontem estive morto. Renasci na madrugada de hoje para novamente morrer amanhã. Agora, exatamente agora, nego-me a dormir. Deixo o sono atormentar-me, até ludibriar minhas últimas resistências. Creio que a recusa em dormir esteja justificada por meu apego à noite. Como é bela a noite. Sempre preparando um novo dia, acalentando as ruas, reavivando as energias. Tudo para que ao nascer do sol, as buzinas possam nos azucrinar. A noite quase não tem buzinas. Quando às ouço, consigo distingui-las facilmente. O dia é ensurdecedor... as buzinas são todas iguais... todas iguais.

Essa noite, já delirei com as aventuras dos embarcados no gra(n)ma, sonhei com as reviravoltas do lummpen e duvidei dos lobos de Hobbes. Hoje, minha única esperança é achar a resposta em que não exista mais nenhuma esperança. Seria a confirmação de meus tormentos e minha certeza final em forma de dúvida.

Em meu último cochilo consegui compreender o cavalo Senador de Calígula, a inquietude de Sócrates e a contradição de Napoleão. Não sei se devo contar-lhes sobre essas coisas. Apaziguar a fúria da juventude é ser impiedoso com os que sonham. Não lhes jogarei água fria enquanto dormem, mas deixarei que acordem tarde e saiam sem lavar os rostos.

Amanhã, terei um pouco mais de minha escravidão remunerada. Despertador, pão, café, ponto, ordem, ordem, ordem. Em verdade, não posso queixar-me do salário. Não que seja considerável. Não me resta tempo para que o gaste. Em nada adiantaria fosse muito.

Ao anoitecer, mais uma daquelas aulas chatas que assisto a uns 20 anos consecutivos. Eles ensinam que todos são iguais, mas alguns são mais iguais que outros. Ensinam que devo me acochambrar nas tetas do Estado e constituir uma família feliz, de preferência com uma loira de belos dentes. Ensinam o culto à vaidade. Alienados... creio já ter passado da idade.

Vou-me embora e retomo contato com a noite. Acho que ficarei um pouco mais acordado, imaginando algo para acreditar. Logo à minha frente vejo o semáforo de minha rua. Aparentemente ele é perfeito, exato, impessoal e democrático. Eu acredito no semáforo. Também acredito no elevador. Pensando bem, creio apenas no elevador, pois o semáforo é um pouco mentiroso...

Ele inventa uma tal de luz laranja que não significa pare ou avance. Foge à lógica medial da virtude aristotélica. Caso minha afirmação fosse anátema, deveríamos aguardar sempre o sinal laranja para iniciar a travessia. Talvez seja apenas meu desânimo com o verde, ou minha frustração com o vermelho. Prefiro o preto, o lado escuro da lua. Na verdade, não existe lado escuro da lua. A lua é toda escura.

No meu prédio – que não é meu – admiro a imponência de 22 andares. Aperto o 11, que é o meu andar. Todas as noites, ao chegar em casa, obtenho a mesma conclusão. O elevador me conduz a um meio termo objetivo. Eu acredito no elevador!

Tiago Felipe de Oliveira

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Seja primaveril

Pise os pés no orvalho da grama de manhã, bem cedo. Amanheça.Veja as flores se abrindo e as ruas se enchendo de um verde mais bonito. Siga trilhas que te levem a novos ares e lugares. Mas não se esqueça que as flores mais bonitas se abrem em nós e o vento que levanta os vestidos pode ser o mesmo que leva embora os pensamentos não mais desejados. Afinal, por mais que as estações estejam indefinidas, a maior primavera é a que acontece dentro da gente.