terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

3714

Segundo as minhas contas ( que peço desculpas, pois não são muito boas, mas tenho desconto, porque não usei calculadora), foram 3714 dias. Dez anos, dois meses e um dia. Lógico que ninguém mais faria essa conta, mas ele se atrasou dezessete minutos e eu não tinha nada pra fazer, além de rasgar dois guardanapos em pedacinhos, claro. Mas às 20:47 ele apareceu. Engordou o quê ? Uns sete quilos ? Deixou a barba crescer, estava meio queimado de sol e com os poros meio úmidos ainda. Trinta minutos de banho, como sempre. E antes que eu me esqueça: cinco anos mais velho. E eu sei que se passaram dez. E eu já falei em  números onze (agora doze) vezes em só um parágrafo.
Encontramo-nos no mesmo restaurante de antes. Só que agora, não é mais aquela decoração colorida, é rústica e eu sabia que ele ia chegar reparando isso. O teto de madeira já é meio baixo para ele.
_ Esse lugar diminuiu, disse.
_Não, você cresceu. Mais.
Eu me levantei e nos abraçamos formalmente. Depois, um silêncio de alguns segundos intermináveis. Ele observando o lugar e eu acompanhando como se também me fosse desconhecido. Até que ele decidiu pedir as bebidas. Quando o garçom chegou, eu disse : _ Não, pode deixar, eu já sei ! Um mojito ! ; ele riu : _ Não bebo mais, pode trazer um guaraná, moça.
_Por favor, complementei, engasgando e olhando para baixo.  E quero um suco de maracujá, por favor.
_ Continua vindo muito aqui ? Ele perguntou.
_ Venho, a cidade continua sem muitas opções.
Aqui vocês podem incluir dois minutos intermináveis de silêncio.
_ Ele é legal ?
_ É, sim, muito. De vez em quando eu chego tão cansada, ou preguiçosa mesmo, que até tomo água sem duas pedrinhas de gelo e me deito onde estiver mais perto. E eu sei que ele sempre vai chegar com o jantar e beijar a minha testa que eu nem lavei ainda. "Vai tomar banho, vai. A sua cama não vai gostar de te receber assim." Receber! Vê se pode! (...) Ah, seu guaraná! E ela?
_ Ela também é legal. Daquele jeito, sabe? Conheci muitas pessoas através dela, além de me ajudar muito nas minhas decisões. Ela tem o espírito da coisa, entende? Você também tem, só deveria sair daqui.
_ Acho que você nunca vai respeitar a minha decisão de apenas querer respirar tranquila.
_Claro que respeito, mas não concordo. Por que apenas respirar se você pode investir seu fôlego ?
_  Até o fôlego temos que investir? E olha, eu gosto de espaço, de poder cruzar e descruzar as pernas quando eu quiser. Tudo que dizem ser pequeno, geralmente, me dá mais espaço. E não importa no que eu vá investir o meu fôlego, é bom quando as almas são tão grandes que se encostam nas outras e ninguém reclama por isso. Todo mundo pode querer um pedacinho e dar outro, uma troca sem mesquinhez. E você ainda acha que tem alguma cidade, algum prédio, ou sei lá o que maior que isso...
Ele riu e depois ficou me olhando sério por uns instantes : _ Você não mudou nada mesmo, hein ? E riu mais um pouco.
_ Você também não; disse e fitei o chão.
_ No fundo, você sabe que eu fui porque tinha que ir. Mas ao contrário do que você pensa, eu te respeito e não te culpo por ficar, ele disse ( é, ele teve coragem de dizer).
_ Ficar não é uma culpa. Ir também não. Cada um sabe onde cabe e onde convém. Eu caibo aqui, os que eu amo também e quem mais quiser, não importa. Quer saber? Não quero acordar com a cara rachada de respirar concreto. E isso não é uma culpa, pois não é errado. Por que cada um sabe onde ca...ah, está ficando redundante. Mas você entendeu. E eu acho que vou indo.
_ Mas a gente nem escolheu o prato ainda.
_ É que estou meio indisposta, mas foi bom te ver.
Será que eu realmente pensei que dez anos mudariam alguém ou decidi vir apenas por impulso? Eu não sei, mas não é que a gente aprende desde cedo que os anos mudam sim?! Acho que depende da pessoa, não sei. Mas o que eu sei é que tem coisas que a gente tapa os nossos olhos, sabendo que tapa, mas fingindo que não. Mas mesmo que tenha demorado 3714 dias pra que alguém me mostrar que eu ainda sou feliz por ser assim e que nada no mundo merece mais textos do que quem beija sua testa mesmo sem lavar; Ao ver aquela  mistura da luz do ambiente, com o teto de madeira e o enfeite dourado da mesa no rosto dele, ficou tudo laranja. E me deu uma sensação de cinzas dentro de mim. O tempo pode não curar, não mudar, mas pode queimar. Queimar em mim e me lembrar que o que já foi tocha um dia, vira cinza. Daí cabe a mim decidir se eu vou deixar que o vento me leve, ou se vou aproveitar pra renascer.

"I'm going to buy this place and start a fire
Stand here until I fill all your heart's desires
Because I'm going to buy this place and see it burn
Do back the things it did to you in return"

Coldplay - A Rush of blood To the head