quarta-feira, 29 de agosto de 2012

escondida detrás daquela árvore

 É que eu tinha que limpar o baú e acabei tirando de dentro um forro de mesa, o mais bonito. Meio empoeirado...e tinha que escrever daquelas tardes em que eu colocava a mesa debaixo da árvore e a forrava com esse forro, o mais bonito. Aí você sentava à minha frente e conversava, conversava...daqueles dias que teve aventuras em lugares para mim desconhecidos, não-sei-onde-porém-longes-daqui. Trazia o mundo para a minha casinha rústica escondida de trás daquela árvore. Às vezes terça, às vezes sexta ou todos os dias do mundo, mas você vinha e eu forrava a mesa com o forro, o mais bonito.
 Mas um dia eu sentei sozinha, o vento mexendo no lenço da minha cabeça,  jogando os cabelos na minha cara , fazendo cócegas nos meus cílios. Tive tempo de contar as folhas caídas na grama e histórias para meus ouvidos, levando a minha casinha rústica escondida detrás daquela árvore para o mundo. Pensei que realmente, quando se é insano, não se percebe isso, porque o Dom Quixote não percebia e eu sou devota de São Sancho Pança. Tentava cuspir, de qualquer forma, as borboletas embrulhadas em mim, agitadas pelo tic-tac do relógio , mandá-las para a lua que já aparecia e eu tirei o forro para me servir de cobertor.  Ninguém sabe disso.
 Até um dia, o outro dia, que aquele seu amigo com ares de confiança chegou e eu disse : "Oi, ele não veio" ; mas ele com toda altura, olhou pra baixo e me disse : "Não, ele vem." ; E eu pensei bem alto mesmo para ele escutar "talvez ele ache que aqui é bem escondido mesmo"  e ele respondeu que mesmo que fosse e você se cansasse e achasse que o forro devia ser mudado, ainda viria, por medo de me magoar. Eu o encarei por um tempo e ele tinha as mãos no bolso e o vento queria levar o meu corpo, mas o meu vestido era bem pesado para o vento. Corri e fechei a porta da minha casinha, mas me lembrei de algo. Corri à mesa e ele estava sentado. Puxei o forro e num ímpeto corri e fechei a porta da minha casinha. Nesse dia, o baú recebeu o forro, esse mesmo que você sabe que eu acho o mais bonito. Eu o prendi no fundo , abaixo de trocentas e duas quinquilharias. Aí você chegou e ele já não estava. Eu quis não estar também. Você não precisava pensar em me magoar, isso te prendia à casinha rústica escondida detrás daquela árvore. E tinha uma moça com tom burlesco e aquela que não se parece daqui, que não se assemelha a simplesmente nada e a ninguém e ruas largas, em lugares não-sei-onde-porém-longes-daqui. Paredes pintadas com estampas mais bonitas que as do forro e exposições com cafeteria. Você não me magoa, não precisa achar que atravessar meia estrada e meio mundo para chegar à minha casinha rústica escond...é obrigação.
 Quando escutei três batidas na porta , me escondi no encontro das paredes, onde a visão da janela não pudesse alcançar. Me encostei, me apertei sem respirar para que nem o passarinho do relógio notasse minha presença. As batidas enfraqueceram até chegarem ao fim e de uma vez só , soltei todo o pouco fôlego que retive, num ato desesperado para ganhar mais e nesse alívio, saíram borboletas pela boca e pelo meu nariz, dançando desengonçadas frente aos meus olhos, mas não gostei : Xô, voem daqui; balançando os meus braços, acabando com o espetáculo delas. Atrevidas. Elas dançaram no teto por uns 10 ou 15 ou 54 dias, mas logo acharam abrigo na casinha do cuco   do relógio , que achou que as horas eram muitas para que ele contasse sozinho e esperto, quis dividir o ofício. Só o tempo para abafar aquela dança desordenada das borboletas que saíram de mim.
 Aí abrindo o baú, tão triste de velho querendo limpeza, vi o forro e tinha de escrever desses dias e contar que...Ah, deixa para lá !

"E as borboletas estão girando
Estão virando a sua cabeça
Quem vai girar, não quer cair
Só quer girar, não caia! "   trecho de " A Dança das Borboletas - Zé Ramalho"


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

quem pouco fala, tem muito a não dizer

 Mas Jorge, lá no fundo senta aquele menino dos olhos baixos e os outros garotos gostam de rir dele. Ele quase não fala. De vez em quando, levanta os olhos e percorre a sala, porém calado, estático. Queria conversar ! Acho que de tanto não falar,ele tem muito a não dizer. Sim, a não dizer. É que o silêncio dos olhos, assim...pode guardar verdades, entende? E quem gostaria de escutá-las ? Até me dói um pouco as vezes, Jorge, em pensar que eu ousaria nisto. Penso também em ensiná-lo o quanto as folhas de papel em branco são ótimas em guardar segredos. Sim, talvez já sejam amigos, pois quando dividimos o silêncio com elas, não é necessário que ele se faça audível a muitos.

abaixo da janela

 Pensei que ao abrir a janela de noite, o ar estaria mais fresco. Mas sempre tem esse vento morno no meu rosto e sempre tem um casal na rua lá embaixo também. E eles vão discutir pela razão e quando se cansarem, vão dar razão um ao outro, que vai discordar e dizer que "não, o errado sou eu mesmo", quantas vezes já não vi isso? Afinal, nessa rua escura atrás do prédio não tem clima que chame à felicidade. E sempre tem a minha impaciência aqui em cima também...com aquelas luzes lá. Tudo tão escuro e tantas luzes que parecem até velas, quando eu disse "olha, eu sei o esforço, mas eu não gosto de velas. Não gosto mesmo, porque essas deixam essa sensação de nem escuro, nem claro, nem nada, as velas não são objetivas", e eu sei que você deve ter pensado a causa de ter se metido numa assim. Aí eu peguei a jaqueta na cadeira e saí, simplesmente saí. Eu já tinha visto tudo. Até a sua capacidade de comprar velas e colocá-las assim, desse modo bonitinho, por mim. Será que eu compraria velas por alguém ? Será que eu compraria seja-lá-o-que-fosse? É uma questão a se pensar.
Meu cabelo brilhando assim, caindo uma parte pela janela,  todo reluzente...eu bem que gosto. E você dizia : "seu cabelo brilha como papel laminado". Era bem idiota isso e eu nem ria por querer rir. Eu não ria por nada, porque eu já tinha visto muito e quando eu vi tudo, eu peguei minha jaqueta na mesa e saí.
A verdade é que do décimo quinto andar o mundo é menor. Eu ainda vejo um casal, que eu sei o fim da história. Que é aquele final de todas as histórias, ou que deveria ser, depende dos personagens. Aquele típico final feliz, quando você acha lindo que o outro tome toda a culpa. Mas ainda tem muito que eu não vou ver e bom que eu não veja mesmo, porque quando eu já tinha visto tudo, eu peguei a minha jaqueta na cadeira e saí.
Talvez um dia eu volte, pois que não tenho vergonha da volta e nem exijo que peguem a minha culpa. Agora, quero apenas um ar menos quente e uma lupa para ver o mundo abaixo da minha janela, amanhã.