quarta-feira, 27 de outubro de 2010

da minha amiga

Sempre andava com suas borboletas, e as suas borboletas eram os seus pensamentos. Quando as borboletas corriam, ela ia atrás e todos os dias tinham borboletas novas. Viajava tranquilamente mesmo em dia de chuva, pois as borboletas estavam nela, não precisava sair para procurá-las. Soltava algumas, pois essas não mereciam ficar presas. Saíam umas atrás da outras, mas as vezes também faziam confusão ao sair...normal.
Havia também as suas lágrimas ( mesmo que poucas ), que eram como água. Água? Quando caíam no coração, molhavam o solo da esperança que fazia crescer os sonhos. E quantos sonhos! Depois, os colhia, como quem colhe flores.
Quando o dia estava cinza, os livros o coloriam.
Olhava pro vento e ria. E todos se perguntavam do que tanto ela ria. Mas, deixe-a rir...é bonito. Com tantas borboletas, águas, flores e cores, não há motivos para sorrir ?

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Marcela se foi

Estava inquieta...pegou as roupas, muitas, e guardou todas em uma mala. Exibia sem vergonha a pedra que brilhava em seu dedo, e passava a mão no rosto. Repetia sem pausa:
_ Não nasci pra essa vida. Não nasci. Você diz: " estudando, estudando, estudando..." AGORA!? Fique sabendo que o futuro é distante, bem distante.
Foi-se. Só vi o balanço da cortina...
Faz três dias que apareceu aqui um comerciante. Falava demais. Porém, levou-a com duas palavras, juras e um anel.
Há cinco anos conheci Marcela. Aqui mesmo no interior. Ela veio cuidar da mãe que estava doente e depois que a mãe morreu, derramou umas lágrimas e veio dizer-me que estava encantava com a minha formosura. Saí da casa de minha avó e passei a cuidar da venda. Marcela veio morar comigo.
Por causa dela, passei a me esforçar e estudar as letras. Marcela gostava de se exibir, girar as saias, sorrir e falar bonito. Quis acompanhá-la.
É...acabou, ? E eu achava que era amor. Deste, eu nunca soube muito. Meu me falava do amor pelo céu, pelos cavalos, pelo comércio...Mas, nunca do amor de uma mulher. Um dia fui atrevido:
_ , e o amor? Sabe ...
_ Tico, viu como o rebanho do seu tio tá bonito ?
Depois disso, nem tentei mais. Resolvi aprender sozinho. Aprendi o amor por Marcela e pelas letras. As letras ainda estão aqui e disso não reclamo jamais.
A não gostava de Marcela e mesmo tendo dito que me alertava e não queria choro depois, veio me ver. E como de costume...
_ Eu te disse, filho...essa moça ia além - Ela sempre dizia isso, mas que me importava ? Eu lembrava era do balançar da saia da Marcela - eu te disse. Ora, para com isso, menino ! Sorte sua que seu não está mais aqui pra ver isso, sorte sua! Agradeça a Deus do céu. Encosta cá a cabeça, encosta. Vem menino, encosta logo!
Encostei a cabeça e chorei tal como o menino que a falava mesmo. Fiquei sem reação por uns dias e lá veio a de novo:
_ Sai dessa cama, Tico! A venda tá lá ainda, sabia? "Cê" acha que a moça volta pra te trazer o que comer? Volta nada. Eu não entendo...tanta moça bonita aqui por essas vilas - Eu também não entendia. Pensei que por isso que o avô nunca me explicava,não entendia também - Anda, menino! Já chega!Todo mundo já sabe...acorda !
A me ama, mas do jeito dela. Antes de sair, passou pelo canto do quarto...tinha alguma coisa brilhando. Marcela deixara o anel cair ( imaginei como devia estar sentida por isso) . Minha pegou, olhou...colocou um sorriso meio esnobe no rosto :
_ Bijuteria...falso, falso !

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Quando as palavras fluem

Tenho pensado em te escrever há tempos. Mas as palavras calaram-se, como se já não existissem. Na verdade, elas existem, mas se impregnam em mim, como se eu as quisesse e eu não as quero. Pensei em gritá-las, mas como, se mal consigo falar baixo? E não convém falar baixo, pois a falta ganharia uma certa ternura e ternura é coisa boa. Não que a saudade não seja, não sei mais...
Já não escuto mais o programa das seis, pois a moça do outro lado parece estar tão feliz em falar, e ri...e ri.
Os meus pés se trocam e se confundem entre direita e esquerda. Esquerda e direita.
E o meu coração? Ele pensa em saltar do peito, o lugar que sempre o abrigou, mas agora parece muito pequeno. As vezes penso que ele se derrete e sai pelos poros...tenho suado.
Também tenho tomado chá. Sozinha, agora. Passa um pouco e me pego falando com a xícara . Imagino que deva estar rindo imaginando o diálogo. Ri aqui também.
Depois de um tempo as palavras resolveram por fim, fluir. Então, que as letras e o papel falem por mim.
Ah, e quando ler, SE ler , me retorne. Ou simplesmente, retorne. Pois, pelo o que sei , as suas palavras estão saindo com facilidade, mas ninguém soube me falar se os seus pés também não estão se trocando.