quinta-feira, 13 de março de 2014

quando viver só é bom no ato

Quando chove desse tanto, eu nunca que posso sair pra fora. A vó diz que eu tinha que ter era vergonha de reclamar, porque menino que não come feijão, não tem saúde boa. Já que não posso achar ruim, fico com a cabeça bem encostadinha na janela, vendo os pingos d'água que descem devagarinho, mas quando encontram outros, ficam pesados e apostam corrida com o colega do lado. Mas não é só por isso que eu fico colado na janela não. Eu tenho uma irmã que estuda fora e quando ela vem pra cá, o Pedro estaciona a camionete bem no pé daquela árvore bem ali, que fica de cara com a janela. Quando eu tô encucado com as tarefas do alfabeto, eu só percebo que a Lúcia tá chegando quando eu escuto o primeiro passo dela na escada. Conto mais dezenove e pronto, ela entra pela porta do meu quarto jogando pra cima qualquer caderno que eu tenha na cara e me abraçando bem apertado, com toda a força que menina ganha depois que cresce.
Só que eu vou contar uma coisa que ninguém sabe. No mês passado, eu escutei uns passos tão fininhos, pensei que ela bem devia ter emagrecido, porque estudar cansa mesmo, eu que sei. Mas ela não chegou nunquinha e eu tive que procurar pela menina nesses quartos tudo, mas nada de encontrar nenhum sorriso pelos cantos. Decidi descer as escadas do porão e ela tava bem sentadinha, no primeiro degrau lá embaixo. Quando eu cheguei, ela bem que tentou esconder, mas eu vi que ela tinha um cigarro e eu nem tinha nada pra falar, porque ela me disse tudo com o olhar. Ela jogou o troço pra trás, me abraçou e chorava que nem o irmão bebê que o meu amigo Dinho tem, "eu não faço mais, mano, não faço mais"; eu nunca que contava nada pra vó,  do jeito que ela é, e eu pensei que eram mesmo os livros que tavam estragando a cabeça da Lúcia. Ela disse que tava muito cansada de ver aquele tanto de gente que estuda muito, que ela só queria cuidar de mim. Ela estudava, estudava sim, ia fazer as contas  como ninguém, mas queria ficar bem ali juntinho de mim. E eu dizia era o quê? Nada, ué. A gente não diz nada pros outros que falam de ficar juntinho, a gente só fica e a Lúcia não ia pensar nunca mais que precisava de fumar, porque eu não tinha problema em ficar juntinho.
Ela me perguntava: "Você sabe, Neto, que é difícil? Sabe? Eu nem sei fumar direito, eu nem tenho pose de fumar, eu nem sei conversar, mas se eu tô juntinho de você, eu entendo de tudo no mundo, porque você é um menino tão bom, ensina todo mundo a ser sabido com as coisas do coração e eu só quero saber dessas coisas, Neto." Pena que a vó não quer saber das coisas do coração da Lúcia. Eu sei que ela gosta do Pedro, mas a vó diz que ela não tá estudando pra se enroscar com peão. A vó sempre diz que peão é  muito do esperto e não trisca o dedo na neta dela. Mas eu acho que com o Pedro não é bom de dizer essas coisas. Desde que o vô morreu, a vó manda em tudo. No começo, um monte saiu, dizendo eles, mulher não manda. A vó disse que podia tudo ir embora, que se fosse preciso, ela mesma cuidava de boi, de planta, de neto e de tudo. Mas o Pedro ficou e trouxe mais uns cinco, tudo trabalhador. Eu bem que tentei lembrar a vó, da bondade do Pedro, mas ela disse que nem todo peão vê o trabalho da mesma forma, mas eles tudo vê mulher do mesmo jeito. Por isso, a Lúcia precisava ficar longe, estudando pra ser professora.
Eu nem acho que devia ser tão apertado assim pra minha irmã, mas uma mulher pra ensinar seria mesmo muito bom. Quem me ensina é o Seu João e ele não é ruim não, hein, mas ele não gosta que eu fale muito e eu gosto de aprender e conversar, contar as coisas e  nem tudo se é bom de escrever. Eu bem que explico: Seu João, é que eu não tenho ninguém pra falar das coisas. Antes, eu tinha meu amigo Dinho, mas o pai dele foi um dos que não aceitou as ordens da vó e se mandou. Agora, bem que me preocupo, porque o Dinho tinha uns cinco irmãos e ele me dizia sempre 'ai, Neto, meu pai não arruma dinheiro igual aqui, não arruma não'. O Dinho tinha preocupação de gente grande, porque eu nunca que ia pensar em dinheiro, se eu tivesse cinco irmãos.
O Seu João só sabe responder uma coisa: "Tá, agora escreve." ; mas eu continuo, porque ainda tinha coisas pra falar do meu amigo: Quando o Dinho vinha brincar aqui, eu ficava bem feliz. A gente conversava de tudo e ele tinha muitos irmãos. Nenhum foi estudar na cidade. Aí, quando ele vinha, ninguém ficava triste, porque tinha com quem brincar... ele vinha todo sossegado. _ "Tá, agora escreve." E eu tento falar de novo, pra ver se essas pessoas que ensinam as letras conseguem entender como elas funcionam na minha caixola: Seu João, tem coisa que não é boa de escrever não. Tem palavra que é bonita no ato. Amizade é palavra bonita no ato. De escrever, não. Tem "Z" e eu não gosto. Feliz também tem "z".
Lúcia não tem "Z" e agora só tenho ela e a vó, o Dinho não vem mais e a minha mãe, que chamava Zélia, morreu de dor quando eu nasci. Por isso, dá uma coisa ruim pra escrever, mas pra viver, a gente vive qualquer palavra.