sexta-feira, 5 de abril de 2013

sobre a mesa

Ontem, uma simples cena de filme me incomodou tanto! Eu poderia ter me incomodado com a parte do cara que morreu, com a esposa dele que o traía, ou com as falas filosóficas que os personagens faziam em algum momento estranho de desabafo, mas não. Eu me incomodei com algo bem menor. Com a apatia das pessoas à mesa! Tá, eu sei que devemos sentir isso mesmo ao assistir o filme, mas não virar a noite se perguntando como isso é possível. É, como eles conseguem se manter em silêncio durante as refeições? Digo isto porque a mesa da minha casa sempre foi louca. Louca! Só de pensar nela, eu me lembro de tantas coisas...
Para começar, preciso dizer que ela é icônica. Uma mesa simples não acomodaria a família toda ( isso por que a família inclui amigos, vizinhos, revendedoras da Avon, pedintes e tios ricos e distantes, porém loucos por uma galinha caipira), então arranjamos uma mesa grande, de mármore preto, que fez a minha mãe ficar tranquila por uns dias.
Todos os dias no almoço meu pai contava as histórias de vida dele para todos, repetia a mesma piada de um tal de feijão "macaça" para os meus amigos, dizia que os filhos eram cordas do coração e gritava: "Me passa o tomate, Vanise!" ; Eu explicava que Vanise era minha irmã que nem morava com a gente, mas um dia eu me cansei e resolvi atender por Vanise mesmo.
Também no almoço, escutava do meu irmão mais velho que eu tinha sido achada na lixeira, me ressentia e gritava pela intervenção da minha mãe. Até que um dia resolvi fazer o mesmo,. Disse pro meu irmão mais novo que ele tinha sido adotado e ele foi chorar no sofá da sala, escondido. Depois que o vi, me arrependi e me conformei em sermos todos irmãos dos mesmos pais ou todos achados na lixeira, pouco importava.
Um dia, resolvi criar coragem e quando me sentei na mesa disse pro meu pai que estava pensando em namorar : O que o senhor acha?
_Mas você só tem ONZE anos! , ele respondeu.
_Não, pai! Eu tenho quatorze!
_Ah, então sendo assim, tudo bem. O que o pai dele faz da vida ?
Falando em namoro, meu cunhado também foi apresentado num dia como estes. E quando o meu pai perguntou o que ele fazia ( já tinha idade para ter terminado o ensino médio, né?) , ele respondeu que administrava uma facção de roupas com o pai dele. Isso foi até este momento, porque depois, ele virou costureiro e meu pai cobrava cuecas novas todos os dias. Não era por maldade, ele realmente pensava que meu cunhado era costureiro e fazia questão de falar todos os dias que não tinha preconceito, "não precisa se envergonhar, é uma profissão. Você faz cuecas?"
Minha melhor amiga se tornou minha melhor amiga na hora do almoço. Voltávamos da escola juntas e sempre passávamos na minha casa primeiro e eu a convidava. Lá vinha meu pai de novo, empurrar suco de graviola nela. Com o argumento mais convincente do mundo : "Seu pai é piauense, não precisa fingir que não gosta". Toma logo, amiga, antes que ele tente fazer você comer carne de bode, antes que ele traga o Nordeste inteiro para a mesa!
Quase sempre o feijão tava salgado e meu pai dizia que queríamos matá-lo, só podia! Quase sempre eu precisava de dinheiro e o meu pai me colocava no colo e me dizia: O que vocês pedem chorando que eu não faço rindo? E pronto, só bastava isso pra minha mãe dizer que não sabia o que iria fazer quando "esses meninos" crescessem chatos e mimados.
De vez em quando, minha mãe levava uns pastores para almoçar lá em casa, com suas esposas e filhos. Lógico que não eram poupados. Meu pai tinha histórias meio que profanas para o momento. Contava e ria! Juro que ele não via mal nenhum, ele não tinha nenhum preconceito. Mas quer saber ? Ninguém ligava e as visitas pastorais eram cada vez mais frequentes e alegres.
É na mesa que a minha mãe deixa as pinhas que ela compra pra mim, é lá que eu sento de noite pra conversarmos enquanto ela traça moldes de roupas e foi ali que eu vivi os momentos que me deram mais raiva no mundo, ao ponto de perder o apetite! E ri demais, ao ponto de cansar e querer comer mais.
Hoje, meu pai não conta histórias mais, nós que recontamos e re-re-recontamos todos os domingos. Mas sempre tem algo que movimenta. As amigas que chegam de última hora, os sobrinhos que sobem em cima, a  discussão sobre as notas na escola, minha irresponsabilidade de dormir, acordar tarde e nem estender a cama, as ironias que eu direciono ao meu irmão e sempre escuto : _" Eu vou dar um murro na sua cara, você sabe que eu não estou brincando! " ; Depois eu morro de rir e a gente acaba rindo junto. Agora né, porque quando criança a gente se pegava ali mesmo e eu apanhava. Ahãm, do meu irmão mais novo.
Aliás, o último domingo de páscoa foi ótimo e eu preciso deixar uma dica, gente: Quando todos estiverem calados, diga que alguma coisa está sem sal. A lei da ação e reação é sempre precisa !

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

3714

Segundo as minhas contas ( que peço desculpas, pois não são muito boas, mas tenho desconto, porque não usei calculadora), foram 3714 dias. Dez anos, dois meses e um dia. Lógico que ninguém mais faria essa conta, mas ele se atrasou dezessete minutos e eu não tinha nada pra fazer, além de rasgar dois guardanapos em pedacinhos, claro. Mas às 20:47 ele apareceu. Engordou o quê ? Uns sete quilos ? Deixou a barba crescer, estava meio queimado de sol e com os poros meio úmidos ainda. Trinta minutos de banho, como sempre. E antes que eu me esqueça: cinco anos mais velho. E eu sei que se passaram dez. E eu já falei em  números onze (agora doze) vezes em só um parágrafo.
Encontramo-nos no mesmo restaurante de antes. Só que agora, não é mais aquela decoração colorida, é rústica e eu sabia que ele ia chegar reparando isso. O teto de madeira já é meio baixo para ele.
_ Esse lugar diminuiu, disse.
_Não, você cresceu. Mais.
Eu me levantei e nos abraçamos formalmente. Depois, um silêncio de alguns segundos intermináveis. Ele observando o lugar e eu acompanhando como se também me fosse desconhecido. Até que ele decidiu pedir as bebidas. Quando o garçom chegou, eu disse : _ Não, pode deixar, eu já sei ! Um mojito ! ; ele riu : _ Não bebo mais, pode trazer um guaraná, moça.
_Por favor, complementei, engasgando e olhando para baixo.  E quero um suco de maracujá, por favor.
_ Continua vindo muito aqui ? Ele perguntou.
_ Venho, a cidade continua sem muitas opções.
Aqui vocês podem incluir dois minutos intermináveis de silêncio.
_ Ele é legal ?
_ É, sim, muito. De vez em quando eu chego tão cansada, ou preguiçosa mesmo, que até tomo água sem duas pedrinhas de gelo e me deito onde estiver mais perto. E eu sei que ele sempre vai chegar com o jantar e beijar a minha testa que eu nem lavei ainda. "Vai tomar banho, vai. A sua cama não vai gostar de te receber assim." Receber! Vê se pode! (...) Ah, seu guaraná! E ela?
_ Ela também é legal. Daquele jeito, sabe? Conheci muitas pessoas através dela, além de me ajudar muito nas minhas decisões. Ela tem o espírito da coisa, entende? Você também tem, só deveria sair daqui.
_ Acho que você nunca vai respeitar a minha decisão de apenas querer respirar tranquila.
_Claro que respeito, mas não concordo. Por que apenas respirar se você pode investir seu fôlego ?
_  Até o fôlego temos que investir? E olha, eu gosto de espaço, de poder cruzar e descruzar as pernas quando eu quiser. Tudo que dizem ser pequeno, geralmente, me dá mais espaço. E não importa no que eu vá investir o meu fôlego, é bom quando as almas são tão grandes que se encostam nas outras e ninguém reclama por isso. Todo mundo pode querer um pedacinho e dar outro, uma troca sem mesquinhez. E você ainda acha que tem alguma cidade, algum prédio, ou sei lá o que maior que isso...
Ele riu e depois ficou me olhando sério por uns instantes : _ Você não mudou nada mesmo, hein ? E riu mais um pouco.
_ Você também não; disse e fitei o chão.
_ No fundo, você sabe que eu fui porque tinha que ir. Mas ao contrário do que você pensa, eu te respeito e não te culpo por ficar, ele disse ( é, ele teve coragem de dizer).
_ Ficar não é uma culpa. Ir também não. Cada um sabe onde cabe e onde convém. Eu caibo aqui, os que eu amo também e quem mais quiser, não importa. Quer saber? Não quero acordar com a cara rachada de respirar concreto. E isso não é uma culpa, pois não é errado. Por que cada um sabe onde ca...ah, está ficando redundante. Mas você entendeu. E eu acho que vou indo.
_ Mas a gente nem escolheu o prato ainda.
_ É que estou meio indisposta, mas foi bom te ver.
Será que eu realmente pensei que dez anos mudariam alguém ou decidi vir apenas por impulso? Eu não sei, mas não é que a gente aprende desde cedo que os anos mudam sim?! Acho que depende da pessoa, não sei. Mas o que eu sei é que tem coisas que a gente tapa os nossos olhos, sabendo que tapa, mas fingindo que não. Mas mesmo que tenha demorado 3714 dias pra que alguém me mostrar que eu ainda sou feliz por ser assim e que nada no mundo merece mais textos do que quem beija sua testa mesmo sem lavar; Ao ver aquela  mistura da luz do ambiente, com o teto de madeira e o enfeite dourado da mesa no rosto dele, ficou tudo laranja. E me deu uma sensação de cinzas dentro de mim. O tempo pode não curar, não mudar, mas pode queimar. Queimar em mim e me lembrar que o que já foi tocha um dia, vira cinza. Daí cabe a mim decidir se eu vou deixar que o vento me leve, ou se vou aproveitar pra renascer.

"I'm going to buy this place and start a fire
Stand here until I fill all your heart's desires
Because I'm going to buy this place and see it burn
Do back the things it did to you in return"

Coldplay - A Rush of blood To the head