quinta-feira, 8 de novembro de 2012

No Stress !

Pronto, todos já estavam arrumados. Saíram todos 15 minutos antes do que seria normal e a mãe insistia em perguntar: - Tem certeza que a sapatilha nova não está te machucando, filha?
O casal sentou na primeira fileira e esperou o espetáculo começar. Passados alguns minutos, entra o grupo. Clara estava linda e como dançava bem! A mãe cutucava o pai toda hora : - Olha o que nós fizemos, amor! - Olhando assim percebia o quanto valera a pena largar tudo para se dedicar à filha, somente a ela. De repente, Clara para no palco, fecha o punho. Todas as bailarinas param e ficam olhando quando ela começa a...gritar! É, gritar! Solta um grito, fecha a cara e sai do palco.
De noite, a mãe não consegue dormir, vira de um lado para o outro preocupada e não consegue sequer fechar os olhos. O pai insiste: - Crianças gritam, Mônica, é normal. - repetiu isso muitas vezes. Até que Mônica se decidiu: - Vou ligar para a minha mãe, Júlio. Você não está ajudando em nada.
A mãe de Mônica tinha ido passar uns dias no litoral e estava com mais duas amigas jogando baralho quando o celular tocou.
- Alô, Mãe?
- Oi? Mônica? Tudo bem?
- Oi, mãe. Mais ou menos. Tô vendo que tá bem barulhento aí, hein? Vou direto ao ponto. Hoje foi a apresentação de balé da Clarinha. Ela parou no meio da dança e começou a gritar. Não quis tocar no assunto com ela ainda. Acho que é estresse. Não sei, sinceramente.
A velha abre a boca assustada e as outras começam a cutucá-la: - O que é? O que ela está dizendo?
- Espera aí, minha filha.- Diz e vira-se para as companheiras. - A Clara começou a gritar do nada na apresentação de balé. Mônica disse que ela gritou tanto que perdeu o fôlego, tadinha. É a genética, o vô dela era asmático. Disse também algo de estresse.- Aí pronto, todas começaram ao mesmo tempo : - Fala pra Mônica levar a menina na última barraca da feira 9, lá tem uma garrafada que cura qualquer coisa ! Deixa qualquer criança calma, eu sei porque o filho da minha patroa era hiperativo e curou tudo, nunca mais o menino inventou de fazer bagunça. - De lá da cozinha, a outra gritou: Chama o padre para benzer, não pode deixar a menina assim, tadinha. Tem gente grande que espuma pela boca de estresse, imagina a menina um toquinho que é! - A velha pegou o telefone e disse : Escutou ? Última barraca da feira 9 e padre para benzer. Vou levar muitos presentes para ela na volta, quem sabe isso não cura?
- Será, mãe? Tenho medo de intimidá-la com essas coisas de remédio e tal. Li na internet que pode dar manchas brancas na pele. A senhora ainda tem aquela pomada ?
Mas a mãe de Mônica já estava gritando "TRUCO!" e a ligação foi encerrada.
No outro dia, Mônica levou Clara para a escola sem nenhuma palavra. Na saída, a menina sorriu para a mãe que já começou a articular: - Será que esses sorrisos nervosos são típicos de crianças estressadas? Ai, nossa senhora das mães perdidas! O que eu fiz com a minha filha?
Durante a tarde, derivou entre ligar e não ligar para a psicóloga. A síndica do prédio indicara uma que diziam ser ótima. Mas era melhor conversar com a Clarinha, talvez ela só quisesse tirar umas férias. A casa dos tios no Paraná seria uma ótima ideia. Sim, férias! Tudo resolvido.
 Já pouco antes do jantar, Clara entra na cozinha perguntando pelo cereal. A mãe não aguenta e pede : - Senta aí, Clarinha. Precisamos conversar. - A menina senta e olha calmamente para a mãe, que depois de articular a frase, solta : - Talvez você ainda não se sinta segura para falar sobre isso, mas qual o motivo do grito na sua apresentação de dança?
- A Ana pisou no meu pé. Aguentei uma, duas vezes, mas na terceira não deu, mãe. Não deu! Era de propósito! Gritei e saí.
- E você fala assim nessa calma? "Gritei e saí"? Por que você não me falou antes?
- Porque você não me perguntou antes? Posso ver TV agora?
Mônica ficou ali, sentada na cadeira, parada , pasma e boquiaberta...Por que os filhos têm de ser tão complicados?